Relato da Viagem do Elefante

sábado, 12 de fevereiro de 2011





A VIAGEM DO ELEFANTE
Por Benildo Lima

Após pedalar com regularidade por cinco anos, já tendo um grupo formado e com diversos integrantes resolvi que era o momento de fazer uma viagem de bicicleta que ultrapassasse os 1.000 Km.
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Conversei com a esposa e filhos e o apoio foi total. Era tudo que eu queria ouvir. A cabeça fervilhava de idéias, mas como esse seria um feito inédito no nosso Estado, nada melhor do que homenageá-lo. Lembrei então das aulas de Geografia e da semelhança do mapa do Rio Grande do Norte com um elefante. Recorri também a um livro recém lido de José Saramago relatando a viagem épica do elefante Salomão. Tudo serviu de inspiração.

Definido o local da viagem, chegou o momento de traçar o roteiro. O primeiro desafio foi eliminar os trechos pela beira mar, pois sabia que isso somente iria aumentar o desgaste dos ciclistas, bem como da bicicleta. Fui direto para o GPS e sem muita dificuldade conclui que teria pela frente aproximadamente 1.200 Km, sendo que apenas 20 Km seria em estrada de barro. Perfeito. Elaborei o trajeto levando em conta três critérios na escolha das cidades que serviriam de pernoite: primeiro, a importância da cidade no contexto sócio-econômico da região; segundo, alguma relação afetiva que guardava com a cidade; e terceiro, se entre uma cidade e outra havia uma distância média de 90 Km.
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Traçado o roteiro e elaborado um cronograma de viagem. Era chegada a hora de divulgá-la, pois assim iria descobrir se mais algum “maluco” estaria disposto a compartilhar comigo daquela aventura. Joguei a informação na Internet e iniciei a divulgação boca a boca, isso com bastante antecedência. No começo muitas manifestações surgiram, todos entusiasmados com aquele desafio. Registre-se que ninguém chegou para me desencorajar.
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Firmei uma data de saída e o dia escolhido foi 06 de janeiro de 2011, às 06h00min, defronte ao Plano 100 da Avenida Ayrton Senna. O dia da semana seria uma quinta-feira e por ser feriado na Capital – Dia de Reis -  possibilitaria uma maior participação na saída. O horário foi o comumente utilizado nas nossas pedaladas nos finais de semanas. O local também seguiu esse mesmo padrão.
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De início muitas pessoas manifestaram interesse em fazer todo o trajeto, mais com a aproximação do dia da partida esse número foi minguando. O fato é que faltando poucos dias para o início apenas cinco pessoas além de mim confirmaram. Foram elas: Artur Martins, permissionário de transporte escolar, integrante do Rapadura Biker que pedala com frequência na Rota do Sol e na companhia de quem já havia realizado viagens de bike para Florânia  e de João Pessoa até Natal; André da Bicicletada, lanterneiro de mão cheia e ciclista que conheci na reunião da ACIRN – Associação de Ciclistas do Rio Grande do Norte, mas de quem somente tinha recebido boas informações; Jadson, também integrante do Rapadura Biker, mecânico de bicicleta e pessoa que eu torcia fizesse parte do grupo, pois sei que é desenrolado no seu ofício; Raimundo Bezerra, professor de Biologia, que também integra o Rapadura Biker e foi um dos seus fundadores, tratando-se de uma pessoa com muita experiência em viagens; e Sérgio Teda, educador físico, uma mistura de Rapadura Biker com Calango Seco, uma pessoa  bastante tranquila, que em outras viagens tinha se revelado uma excelente companhia.
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Fizemos uma reunião prévia com todos interessados na viagem e fiquei admirado quando vi mais de vinte pessoas dizendo que participariam do primeiro dia. Ali foi estabelecida uma regra: a saída seria no horário combinado, mesmo que estivesse chovendo. Não deu outra: no dia marcado a chuva começou por volta de 01h00min da madrugada e continuou pelo resto do dia.
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Às 06h00min o grupo estava pronto. 24 ciclistas estavam no local, debaixo de forte chuva. No caminho outros vieram se juntar a nós, de forma que contabilizamos 26 ciclistas.
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Seguindo o cronograma fomos pela Via Costeira, pois seria uma forma de prestigiar nossa Capital, pedalando pelas lindas paisagens das praias urbanas e ainda de quebra tendo a possibilidade de visualizar os nossos principais cartões postais: o Morro do Careca, o farol de Mãe Luiza, a fortaleza dos Reis Magos, a praia da Redinha e a o Ponte de Todos. A escolha teria sido perfeita se não fosse o fato da Via Costeira continuar sendo um canteiro de obras e um depósito de garrafas quebradas. Eram tantos pregos e cacos de vidros que tivemos seis pneus furados em menos de 10 Km percorridos, o que atrasou a viagem em aproximadamente uma hora.
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Conseguimos sair da zona urbana e alcançamos a BR 101, já no Município de Extremoz.  Dali até Touros não haveria muita dificuldade pois teríamos o vento ao nosso favor e uma topografia relativamente plana.
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Chegamos antes do horário previsto e fomos direto para a casa de Gracinha Gomes, irmã de Júnior Verona, que pedalou conosco nesse primeiro dia. A acolhida foi maravilhosa e chegamos todos bem. O trajeto total foi de 104 Km.
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No dia seguinte o nosso objetivo era João Câmara, cidade pólo da região do Mato Grande. A viagem seguiu tranquila e mais uma vez chegamos antes do horário previsto. Foram 60 Km de asfalto. Na cidade fomos acolhidos por Rodrigo, também na casa de Gracinha Gomes.
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O terceiro dia chegou e a bússola apontava para Macau, região salineira do Estado. O tempo estava nublado e no meio do trajeto o sol resolveu nos acompanhar. Também vencemos os 104 Km planejados sem nenhum percalço. A cidade não mudou muito e suas salinas continuam sendo o atrativo.
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Continuamos nosso trajeto e desta feita tínhamos que alcançar Mossoró. Aqui ciclistas de Macau do Grupo Rodas do Asfalto (Gringo, Jean, Chan, Edinho e Freitas) nos acompanharam durante um trecho Ponderamos muito sobre qual o melhor trajeto a ser seguido e resolvemos seguir por Pendências, evitando assim o trecho de barro entre Macau e Porto do Mangue. A escolha foi correta, pois apesar de mais extenso o percurso foi mais tranquilo e sem nenhum incidente. Registre-se que o pessoal do Ciclismo Mossoró (Alex Polary e Gilvan) nos acompanhou por um período. Chegamos a Porto do Mangue e iniciamos a pedalada na Costa Branca, passando nas Dunas do Rosado, na Ponta do Mel, Redonda e entrada de Areia Branca. Resolvemos então que Mossoró seria o nosso local de hospedagem e após 145 Km de pedaladas chegamos ao nosso objetivo. A cidade é a segunda maior do Estado e vem chamando a atenção por seu vertiginoso crescimento urbano. Podemos constatar isso facilmente pois de longe vários edifícios são vistos, cena típica de cidades grandes.
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Deixamos Mossoró no horário planejado e  fomos no rumo do Vale do Apodi. Aqui tivemos a surpresa de receber Nelson Maia, ciclista amigo de Pau dos Ferros que veio se incorporar ao grupo. Pedalamos muito bem e vencemos os 80 Km com certa facilidade. Como chegamos com sobra no horário resolvemos conhecer o Lajedo de Soledade e essa foi uma ótima opção, gerando assim um total de 90 Km pedalados. Ali encontramos registros dos nossos antepassados, que deixaram marcado nas pedras os sinais dos momentos ali vividos. O local é mágico e merece uma visita sempre.
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Nosso próximo destino foi a chamada Tromba do Elefante. Saímos de Apodi na companhia de Nelson Maia e Fernando e após 75 Km de boa pedalada chegamos em Pau dos Ferros, a Princesinha do Oeste. A cidade cresceu muito desde minha última visita e constatei que com a chegada em definitivo da BR 226 haverá um incremento no comércio local, pois muitas pessoas deixarão de se deslocar até Mossoró, preferindo Pau dos Ferros que é mais próximo.
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Fomos pelo trecho ainda não concluído da BR 226 até Patu. O caminho nos reservou algumas surpresas, pois passamos ao lado da Serra de Martins e encontramos umas subidas significativas. Vencemos todas e admiramos a bela paisagem. Depois de exatos 70 Km chegamos na placa de boas vindas ao Município de Patu. No local fomos visitar o Santuário de Nossa Senhora dos Impossíveis, na Serra do Lima. Ficamos deslumbrados com a paisagem, mas também entristecidos com a sujeira deixada pelos romeiros. É incrível o número de garrafas plásticas espalhados pelo lugar. Ademais, não encontramos lixeiras para que as pessoas acondicionem o lixo.
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De Patu atravessamos a Paraíba, passando por Belém do Brejo do Cruz e Brejo do Cruz, a terra do cantor e compositor Zé Ramalho. Entramos no Seridó passando por Jardim de Piranhas e depois de muito sofrimento chegamos em Caicó, a principal cidade da região. Foram 86 Km de asfalto e muito calor. A noite a temperatura da cidade diminui e se torna agradável. Chamou atenção o fato de que as pessoas praticam muita atividade física, principalmente na Ilha de Santana.
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Continuamos nossa saga pelo Seridó e rumamos até Acari. O caminho escolhido foi via Jardim do Seridó, pois a rodovia oferece melhores condições de acessibilidade e segurança. Novamente enfrentamos o calor intenso da região e o trajeto de 74 Km foi difícil de superar. A recompensa, no entanto, foi excelente. Ficamos hospedados na casa de Pedro Brito, no Gargalheiras. O local é mágico e bastante acolhedor. Tivemos a oportunidade de conhecer a história do lugar por meio de uma exposição fotográfica. Também foi possibilitado ao grupo participar da abertura de uma colméia de abelhas e conhecer um pouco da vida em coletividade desses animais. Foi um dos momentos simples e gratificantes da viagem.
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Deixamos Acari e passamos dentro de Currais Novos, local que nos possibilitou ótimas acolhidas. Atravessamos o núcleo da cidade e iniciamos um dos trechos mais difíceis de toda viagem: a Serra do Doutor contra o vento e com o sol no seu grau máximo. Foram 98 Km de muita canseira, mas vencidos com bastante empenho por todos. Chegamos a Santa Cruz antes das 14h00min, mais uma vez antes do horário previsto.
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De Santa Cruz, devidamente abençoados por Santa Rita de Cássia e após admirarmos a maior estátua religiosa do Brasil, seguimos na direção de Passa e Fica. Ingressamos mais ainda na região Agreste do Estado e a vegetação e o clima começaram a mudar. Depois de 64 Km chegamos em Passa e Fica e na entrada da cidade Dona Neide da Pousada Pedra da Boca tinha preparado uma recepção. Vários ciclistas no acompanharam até a pousada, na companhia de um carro de som e fogos de artifícios. Foi uma agradável surpresa. Aqui visualizamos e visitamos a Pedra da Boca, no Parque Estadual de mesmo nome, na cidade de Araruna-PB.
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Saímos cedo de Passa e Fica e praticamente atravessamos todo o Agreste Potiguar, deixando para trás Nova Cruz, Montanhas e Pedro Velho. Às 11h30min chegamos novamente na BR 101 e de novo estávamos perto do litoral. Após uma rápida passagem por Canguaretama  fomos em busca de Barra de Cunhaú. Nos hospedamos na excelente Pousada do Forte e renovamos as energias para o último dia do trajeto. Hoje pedalamos 83 Km.
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Chegou então a última etapa do trajeto. Dali até Natal apenas 60 Km nos separavam. A escolha era seguir pelo Chapadão de Pipa e de lá atravessarmos de balsa de Tibau do Sul até Malembá, onde então pedalamos pelas areias da praia até Barreta. Tudo ocorreu como planejado e a maré baixa permitiu uma pedalada gostosa na beira da praia. Passamos por Barreta, Camurupim, Tabatinga, Búzios, Pirangi, Cotovelo e Pium e exatamente às 12h15min chegamos ao estacionamento do Plano 100 da Avenida Ayrton Senna. Ali foi só festa e emoção: banda de música tocando frevo, foguetório e muitos amigos e parentes. Foi uma recepção digna de um final de pedal.
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Após 1.113 Km de estrada a sensação foi de vitória. A bandeira do cicloturismo foi fincada com força e orgulho pelo Grupo Rapadura Biker e demais ciclistas que vieram somar conosco. A nossa passagem em mais de quarenta cidades serviu para divulgar a bicicleta como um meio de transporte viável, benéfico à saúde, não poluente e agregador de valores. Foi muito bom compartilhar com as pessoas informações sobre as cidades e responder a cada pergunta curiosa sobre a emoção de viajar pedalando. Quando cheguei em casa e fui tomar o meu banho tranqüilo já me veio na cabeça a pergunta: qual será a próxima viagem?                      

Um comentário:

Regia disse...

SIMPLESMENTE ESPETACULAR !!!!!!!!!!!!!! UM DIA EU CHEGO LÁ !!!!!!!!!

 

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Quando acontece?

Quando: toda última sexta-feira do mês.
Onde: concentração no IFRN, Salgado Filho.
Horário: a partir das 19 horas e saída as 19:30hs.

O roteiro (suscetível a alterações a qualquer tempo) é definido no ato da concentração.

Qualquer um pode participar, não importa o sexo ou a bicicleta, não fazemos competição, não fazemos só um passeio, fazemos ciclopasseata, cicloativismo, paramos em sinais, abrimos faixas, cartazes, panfletamos, conversamos com motoristas e nos divertimos muito assim, promovendo a bicicleta na cidade.

Então, chame seus amigos e junte-se a nós!
Leve faixas, cartazes, placas, personalize sua bike, ou seja, use sua criatividade para transmitir à cidade nossos ideias.
A participação é livre e gratuita, venham para somar.

É desejável o uso de equipamentos de segurança como capacete e luzes sinalizadoras.

Menores de idade somente acompanhado de um responsável.

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"Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente". - Krishnamurti

"Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas motivadas e comprometidas possa mudar o mundo" - Margaret Mead

"Posso não conseguir mudar o mundo, mas vou me divertir tentando" - Anônimo

"Precisamos em Natal na verdade, é de Mobilidade Humana" - Milena Trigueiro

"Bicicletada Natal, não é um grupo de passeio, é um estado de espírito" - Clebson Melo

Sem Ciclos

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É um blog desenvolvido pela Bicicletada Natal/RN para catalogar os acidentes envolvendo ciclistas no estado. Tem por objetivo argumentar a necessidade da estrutura e da segurança para os ciclistas, de forma que entada-se que o uso da bicicleta está além da diversão e lazer e que para tanto, necessita de políticas que enxerguem a necessidade de trabalhar esse modal em todos os seus aspectos. Sabe de alguma ocorrência de acidente com ciclista? Informe-nos aqui.