Você já andou em transporte público? - Reflexões, já mesmo? em Natal?

segunda-feira, 29 de março de 2010

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 (Qual a melhor maneira de 50 pessoas se transportarem pela cidade?
1) 50 bicicletas. 2) 50 carros. 3) 1 ônibus. )
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Privatizado

Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.

Bertolt Brecht
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Você já andou de transporte público? Sim? Engana-se. Afinal, o que significa um serviço ser público? Quando a criança ou o jovem vão para a escola pública, ele passa o cartão eletrônico na porta da escola, para debitar a tarifa diária para o estudo? E ao entrar no hospital público, quem cobra dele R$2,00 para ser atendido? Ninguém. N´uma praça, ninguém paga para entrar, em qualquer espaço público, a entrada é livre e gratuita - porque se o que é público, é nosso, ninguém pode cobrar para entrarmos em nossa própria casa ou o que quer que nos seja comum.



O transporte é um serviço imprescindível para todos os outros, pois como poderíamos chegar à escola, ao hospital, ao parque, ao teatro, ao trabalho, sem transporte? Mas, quando pedimos parada ao ônibus e ele abre a porta para entrarmos, não temos passagem livre, somos barrados por uma roleta e um cobrador, seja uma pessoa ou uma máquina. E ele nos cobra uma tarifa absurda para poder entrar e seguir viagem. Tarifa essa que aumenta todos os anos em um ritmo maior que o aumento do poder aquisitivo da população (qual aumento? houve?).

Enfim, primeira conclusão: NÃO EXISTE TRANSPORTE PÚBLICO. O que existe é um transporte privado que vende um serviço à população. Mas o transporte em si é privado, propriedade de empresas que exploram um serviço essencial para o povo. E aí perguntamos, como fica o povo diante de tal situação? As pessoas não podem viver sem transporte, é essencial para suas vidas. Então, como pode algo essencial ser vendido?

A sociedade não é (ou não é para ser) uma simples aglomeração de pessoas que nenhuma ligação tem umas com as outras, de modo que qualquer um pode fazer algo que afeta (e prejudica a todos) simplesmente por que "pode fazer isso". O ser humano conseguiu prevalecer diante dos demais animais justamente por sua capacidade de associação racional, em um trabalho em prol da coletividade humana. Não havia propriedade privada nesse momento "pré-histórico" da humanidade, tudo era comum, coletivo, e por isso, todos, ajudando-se, puderam sobreviver n´um ambiente natural hostil, onde o homem era dos animais mais fracos e indefesos. Porém, com o advento da propriedade privada, e consequentemente, o surgimento da sociedade de classes (dividida), essa cooperação geral da sociedade humana ou cessou ou se reduziu drasticamente.

É fundamental percebermos isso, as razões iniciais para a sociedade desigual, violenta e segregada que temos; mas não podemos, tendo consciência disso, nos render a tal pensamento. Até porque, desde a Revolução Francesa, a humanidade (através de alguns indivíduos inovadores e a frente, os iluministas) voltou a entender a sociedade com um certo senso coletivo, daí sendo criada a Carta dos Diretos do Homem, na França de Napoleão, o desenvolvimento da idéia de ensino universalizado (educação como direito de todos) e sufrágio universal (por mais que a própria idéia do voto pressuponha a submissão dos que votam aos eleitos).

 (usos do espaço público)

Assim, atualmente se tem um conceito de público em tudo que serve à população (supostamente) de maneira igual, livre e gratuita, pois, de acordo com o mito do "contrato social", nós financiamos um Estado (através de impostos e da concessão do nosso direito de decidir por nós mesmos) para que ele garanta o que nós consideramos essencial, e transporte é uma dessas necessidades essenciais. Então, como podemos nos deparar hoje com o fato de termos que pagar (novamente) por algo que já pagamos (em impostos e concessão de nosso direito de decidir)?

Façamos uma analogia. Imagine que você (entendendo por "você", um ente coletivo, um "você" que representa todos os "vocês") possui uma casa. Porém, por estar ocupado com mil e uma atividades, você decidiu pagar à alguém para cuidar desta casa. Você paga a ela e dá a ela o direito de decidir sobre a casa por você, mas a casa é sua. Imagine que um dia você vai nesta casa e encontra a porta fechada. Quando pede entrada e a porta se abre, você encontra uma pessoa lhe cobrando para entrar em sua casa, alegando que quem você contratou para cuidar da casa autorizou, através do direito que nós delegamos a ele, decidiu cobrar de quem quisesse passar pela porta, inclusive você!

Parece absurdo, não é? Parece porque é absurdo! É lógico qual será a atitude da pessoa que se depara com tal situação, revolta e protesto, lutando para reaver seus direitos sobre a casa, não aceitando tal arbitrariedade e exploração de terceiros sobre o que é seu! É absurdo. E é exatamente o que acontece na nossa sociedade. Os serviços essenciais, que são nossos por direito, ou são sucateados (no caso da educação, saúde, segurança) ou foram 'vendidos' para terceiros, indivíduos privados (que, igualmente, mantém o serviço de transporte sucateado). Por que, então, não temos a mesma postura óbvia da pessoa de nossa pequena história? Por que a revolta e o protesto não se insurgem contra tal disparate?

Após a primeira atitude lógica, a da revolta contra a injustiça evidente da exploração de algo que é nosso, qual seria a atitude seguinte? Deixar tal pessoa no poder sobre nosso bem? Escolher outra pessoa para tomar o lugar dele? Ou dar um jeito de nós mesmos gerirmos o que nos diz respeito? Analisemos cada uma das possibilidades. Primeiramente, deixar a mesma pessoa que nos enganou e explorou na situação privilegiada de decidir por nós e gerir o que é nosso me parece, logicamente, estúpido.  É como saber que um veneno mata e continuar a tomá-lo.

Quanto a escolher outra pessoa para fazer isso, vejamos qual o resultado. Podemos esperar que ela repita o anterior e nos engane ou que seja 'perfeito' e faça tudo direitinho, como esperamos que aconteça. No entanto, já disse uma vez um importante teórico social russo, Piotr  Kropotkin , a respeito de como se construir uma sociedade justa para todos, que não podemos esperar que um dia as pessoas se tornem altruístas, justas, honestas e 'perfeitas', pois as pessoas não são perfeitas, a imperfeição é algo intrínseco do ser humano (ainda que este possa estar sempre em busca de ser perfeito, o que é perfeitamente válido).

(Democracia? Qual é o poder do povo além de obedecer aos poderosos?)

Deste modo, sabendo plenamente que as pessoas não são perfeitas, pensando no bem de todos ao invés de buscar as vantagens pessoais, reconhecendo seu valor, ao invés de procurar distinções sociais, status, poder, etc, reconhecendo isso, não faz o menor sentido esperarmos que um pequeno grupo da sociedade aja desta forma, pensando no bem coletivo ao invés do próprio bem, e cuidem do que é de todos de maneira justa e honesta.

Afinal, pode até ser verdade que um ou outro realmente pensem primeiro no próximo e depois em si, mas nem mesmo este tem uma postura inquestionável, pois se ele não pensa nele, outros poderão explorar esse homem, fazendo-o pensar que está ‘servindo’ (no bom sentido da palavra que esta pessoa entende) aos que se aproveitam dele.

Então, sabendo que cada um irá buscar, primeiramente, o benefício próprio, a vantagem para si, a distinção pessoal, cada um deve, imperiosamente, cuidar de seus interesses, coletivamente. Se todos estão responsáveis pelo todo, ninguém terá possibilidade de tirar vantagem dos outros, pois todos estarão atentos ao coletivo, participando, agindo em prol de todos (pois todos estão observando) e observando a ação dos outros em prol de todos.

Se ninguém é perfeito ao ponto de pensar mais no outro ao invés de em si próprio (e isso nem mesmo significa perfeição), não vou esperar que outra pessoa pense mais nos meus interesses do que nos dele, pois sua índole natural o impele a pensar nos próprios interesses. Então, todos precisam cuidar de seus interesses por si mesmos. Isso não significa a dissolução do coletivo, pois, viver em coletividade é do interesse de todos, a colaboração é o que permite ao ser humano se desenvolver, viver com bem-estar. Cuidar do coletivo é do nosso interesse, assim como o de todos, para isso, todos precisam estar ativos na participação, e não esperando que apenas alguns tenham a consciência que nós precisamos ter.

Acontece que, com a delegação para um grupo separado na sociedade para fazer essa tarefa, cria-se uma confusão na idéia de coletivo. Hoje existe uma oposição entre o público e o privado. Entende-se que o "privado" é que é o meu. Assim, o "público" é de quem? De ninguém! Essa é a idéia generalizada na sociedade, mesmo que não seja de maneira cognitiva, o comportamento das pessoas em relação ao público é esse. "Eu não jogo lixo no chão da minha casa, mas jogo na rua. Eu quero minha casa bonita, com espaços agradáveis para minha vivência, mas a cidade eu deixo que fique feia, poluída, sem espaços coletivos belos para o convívio de todos, como parques, museus, teatros, centros culturais."


(fonte: http://grafar.blogspot.com/)

E essa maneira de pensar não é natural, intrínseca do homem, mas é um reflexo do meio em que ele vive. Desde criança ele é condicionado a essas relações entre as pessoas e as propriedades, ele é ensinado a valorizar o privado e ignorar o público, ele é ensinado a buscar o interesse individualista, indiferente ao coletivo. Após todos esses ensinamentos, como ousar dizer que é algo natural?


(Somos ensinados a não refletir)

E a realidade proveniente dessa mentalidade é esta que temos hoje, onde a imensa maioria vive prejudicada, pois o sistema de propriedade privada é de exclusão, não dando acesso à educação, saúde, cultura e transporte de qualidade ao povo. Não podemos nem devemos simplesmente aceitar e conformar-nos com a situação, pois conformação e obediência é também uma lição dada desde cedo na sociedade, para que os que se beneficiam da situação perpetuem-se no topo, vivendo a custa do sangue da vasta maioria.


(Tradução: Trabalhadores do Mundo, Uni-vos! - autor do grafite: Bansky - 
Conscientes, estamos unidos por um outro mundo possível)

Tendo consciência desse estado de coisas, é preciso uma mudança radical das relações entre as pessoas e entre os bens e recursos naturais. É preciso questionar porque tal indústria tem o direito de usufruir de um recurso natural, tal empresa pode explorar a terra, tal negócio pode lucrar com a vida alheia, isso se a natureza é de todos. Se o direito advém da compra, quem foi o primeiro vendedor e de quem ele comprou?

Antes que tudo estivesse cercado, de quem os homens compraram as terras? Logicamente que de ninguém. As primeiras propriedades foram roubadas do coletivo, através da apropriação do que era da comunidade por apenas alguns indivíduos. E se a origem da propriedade privada foi um roubo, por consequência, toda a propriedade no mundo atual é, igualmente, roubada. E esse roubo só se sustenta através da violência e enquanto a violência for o termo maior do poder, todos sofrerão com a violência, sejam os oprimidos, violentados no dia-a-dia pela exploração, sejam os opressores, violentados pela revolta dos oprimidos.

(Há terra para alimentar a todos, mas a terra não é de todos. Então milhões morrem de fome
fonte: http://grafar.blogspot.com/)

Obviamente que a violência sobre os primeiros é infinitamente maior que sobre os segundos, mas a grande mídia só manifesta-se diante da mínima violência da criminalidade (em comparação com a violência da miséria). E esse mundo de violência é a realidade fundamental de nossa sociedade, por mais que se tente esconder.

Queremos um transporte público (realmente) de qualidade porque o individualismo motorizado é nocivo à vida em sociedade e inaceitável por dois motivos fundamentais. Primeiro que o transporte individualista (o carro) é extremamente poluente no sentido absoluto (a poluição de cada carro individualmente) e no relativo (devido à quantidade de carros em circulação.

Individualmente, é tão poluente (mesmo os carros mais modernos com redução da emissão dos gases do efeito estufa) pelo simples fato que é um veículo grande e pesado projetado para levar cinco pessoas ao passo que, na maior parte do tempo, apenas leva uma. Ou seja, se gasta muito mais energia para deslocar esse veículo grande e pesado do que o logicamente necessário para o transporte de uma pessoa.

E, relativamente, é tão poluente, pois à medida que cada pessoa deseja ter o seu carro e os incentivos da sociedade para que as pessoas tenham carros e substituam os seus com certa frequência é tão grande que o número de veículos cresce incessantemente. Ou seja, 100 mil carros poluem mais que 10 mil. 1 milhão de carros, poluem mais que 100 mil. Mais de 38 milhões de carros (aproximadamente a frota do Brasil) poluem incontavelmente mais que os 760 mil ônibus necessários para transportar todas essas pessoas (38 milhões dividido por 50 – número médio de passageiros por ônibus). Somando aos 417 mil ônibus existentes no país, seriam, então, 1 milhão, 117 mil ônibus. 38 vezes menos carros no país.
 
E essa prioridade dada ao carro tem outra repercussão nas nossas vidas, a apropriação de inúmeros espaços públicos para se tornar infra-estrutura para os carros, principalmente em forma de estradas e estacionamentos, sem contar todas as concessionárias, postos de gasolina, oficinas mecânicas, etc, que seriam muito menos numerosas se não fosse o foco dado pela sociedade no carro. Esse espaço ocupado poderia ser praças, teatros, centros culturais, espaços de convivência entre as pessoas, mas não, é exclusividade do carro. 


O maior problema desse fato é que a grande maioria da população ‘ainda’ não tem um carro, mas quer ter um. Isso quer dizer que o número de carros tende a crescer sempre mais e, por ser um veículo que ocupa um espaço muito grande em comparação ao número de pessoas que carrega (prioritariamente 1), não há espaço nas cidades para tantos carros e a humanidade tende a se afogar no trânsito absurdo, desolador, obstruído, entupido e sufocante das cidades onde o número de carros já esgotou a capacidade viária de suas ruas.

Enfim, reivindica-se transporte público de verdade e de qualidade, e que a sociedade se organize de maneira participativa, cada um sendo responsável pelos seus interesses, não havendo excluídos (miseráveis, escravos modernos, mendigos, desempregados, discriminados, etc.) e não havendo exploração do homem pelo homem, pois se permitirmos que essas condições perpetuem-se, a humanidade só definhará, como está definhando, em violência, destruição do meio ambiente e egoísmo.




Dados sobre a frota brasileira:
http://www.denatran.gov.br/frota.htm

Outras fontes:
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/06/25/000.htm
KROPOTKIN, Piotr. O princípio anarquista e outros ensaios. Editora Hedra, 1º Ed. 2007.
http://www.culturabrasil.pro.br/brechtantologia.htm

3 comentários:

Renato disse...

Belo artigo!

fabiano disse...

Belo artigo! (2)

made in Alessandro! muito bom!

Alê disse...

o/

 

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