Esperando o Transporte Público

terça-feira, 14 de outubro de 2008


Esperando o Transporte Público


A idéia de “público” era para ser muito clara para todos os cidadãos. Público é tudo aquilo construído e mantido pela coletividade, e quando se trata de serviços, o lógico seria apenas pagar uma vez, ou seja, através dos impostos. Por isso temos, ainda que muitíssimo deficiente, o sistema público de saúde e educação, por exemplo, os quais ninguém precisa pagar tarifa nenhuma pelo uso.

A cada raiar do dia e por todo ele, cerca de quinhentos e trinta mil pessoas esperam pelo transporte público em Natal. Amontoam-se nas pequenas paradas que pouco protegem, e aguardam. Esperam vários minutos enquanto alguns ônibus passam e, transcorrido certo tempo, todos desistem. Preferem pegar o ônibus privado mesmo, que é a única opção.

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Estendem a mão para que o motorista pare. Sobem apressados no ônibus antes que ele arranque sem esperar por ele. E, pasmem, pagam uma tarifa por cada viagem, um preço pelo serviço. Certamente que ninguém realmente se espanta com isso, mas é assustador que ninguém nem ao menos se indigne. Afinal de contas, o Brasil não é como os países do Norte, onde as pessoas “podem pagar”.
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Na verdade, ninguém espera nas paradas pelo transporte público. Ninguém desiste de esperá-lo, pois todos simplesmente aceitam pagar. As pessoas acreditam piamente de que temos um serviço que ousam chamar de público. Tudo bem, isso é resultado de um engano histórico compartilhado por praticamente todas as cidades do mundo.
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Ainda que pudéssemos, por que pagamos? Principalmente falando de Natal, por que pagamos uma tarifa que está absurdamente próxima da cobrada em grandes cidades como Curitiba, Salvador, Niterói, quando nossa querida cidade não alcançou nem o primeiro milhão de habitantes? Pagamos apenas 15 centavos a menos do que em Salvador e Brasília, cidades de mais de dois milhões e meio de habitantes, onde se paga R$2 pela viagem.
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Admirável como a diferença entre o desenvolvimento de Brasília e Natal é de apenas 15 centavos. E a diferença de Natal e São Paulo é de apenas 45 centavos. Proporcionalmente, pagamos uma das tarifas mais caras do país. Mas, uma grande novidade para todos, Natal ultrapassou Fortaleza em tamanho e população! A não? Estranho, porque pagamos bem mais caro que eles pelo transporte. Lá ainda se cobra R$1,60 de segunda a sábado, e para deixar alguns de queixo caído, nos domingos, a tarifa cai pela metade.
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Recife também ficou para trás, onde em parte das linhas pagam R$1,75. Lá também praticam a política do domingo mais barato. A última surpresa para todos, Curitiba, a cidade com o transporte urbano mais eficiente do país, reconhecido mundialmente, e com só alguns “gatos pingados” a mais, um milhãozinho de pessoas (1.828.000 habitantes), tem um preço exorbitantemente maior, 5 centavos a mais, R$1,90. Vale salientar, domingos é R$1,00.
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Mas não é só o preço que importa. Existem outras questões também não muito debatidas. A frota de Natal está muito aquém da demanda. Fazendo rápidas contas com os dados fornecidos pela STTU, descobre-se que temos 1,2 ônibus para cada mil usuários. 530 mil natalenses diariamente dispondo de apenas 646 veículos. Vejamos como tal fato não afeta somente o usuário, mas toda a população. Primeiro porque isso significa superlotação freqüente. No horário do rush, quem anda, sabe, há ônibus onde não se passa da catraca, de tão lotado.
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Portanto, a qualidade dos ônibus é bastante questionável. No mínimo em dois horários do dia, almoço e fim de expediante, o usuário tem que enfrentar superlotação. Acontece que ninguém gosta de ter que viajar apertado, em pé e no calor todo “santo” dia para ir para o trabalho, para a escola, voltar para casa ou sair para se divertir. Ou seja, todo natalense, como quase todo morador das áreas urbanas do país e do mundo que enfrenta problema semelhante, quer, o quanto antes, comprar o seu “carrinho”.
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O segundo problema é que Natal, segundo dados do Detran, já possui uma frota de 260 mil veículos, 170 mil destes, sendo carros. Com esse montante, que não leva em consideração os veículos da grande Natal, nossas avenidas principais já estão ficando bastante congestionadas. A Salgado Filho/Hermes da Fonseca, a Prudente de Morais, a Jaguarari, a Bernardo Vieira, entre outras, não agüentam o tráfego durante os horários mais concorridos.
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Imaginem se os 530 mil usuários do transporte coletivo conseguisse adquirir um carro? Com mais meio milhão de carros nas ruas, será que ia sobrar calçada para os pedestres? Segundo o estudo feito pelo Departamento de Estradas e Rodagens do Rio Grande do Norte (DER) em 2008, o Plano Diretor de Transportes da Região Metropolitana, a expectativa de crescimento de viagens individuais, ou seja, em carros ou motos (principalmente carros) aumentará 38% nos próximos 10 anos, crescimento acima do esperado para as viagens coletivas, com 35%.
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O título de cidade com o ar mais puro do país logo, logo desaparecerá. Na verdade, para quem anda a pé pela Salgado Filho pelas 18h já sabe que esse marco foi queimado na combustão interna dos carros há anos. Isso tudo porque deixamos que o sistema de transporte coletivo seja sucateado, superlotado e relegado àqueles que não têm outra opção senão esperar longos períodos, temendo serem assaltados ou grudarem-se no banco do parada.
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Uma última questão que precisa entrar na pauta de discussão dos usuários, especialmente os estudantes, é a bilhetagem eletrônica (BE). O sistema de BE para estudantes ainda não foi implementado, mas já está em adiantado processo de testes, como pode ser constado pelos mais atentos nas paredes dos ônibus há algumas semanas, quando um aviso da SETURN informava que estagiários da STTU estariam testando os primeiros cartões eletrônicos estudantis.
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Mas, o que representa tal cartão? Pode representar três coisas, a mais amplamente divulgada é a boa notícia de que o sistema facilita o pagamento através do acessório magnético, deixando mais eficiente a entrada de passageiros. Mas as duas outras facetas não são tão positivas.
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Primeiro que o sistema representa o desaparecimento de centenas de empregos, pois os cobradores desaparecerão daqui como já desapareceram de outras cidades onde existe a BE, como Goiânia, GO. Segundo que o cartão abre imensas possibilidades para o controle do estudante, podendo, através deste prático sistema informatizado, passar a limitar cada vez mais o direito do estudante de pagar meia passagem.
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Isso porque, segundo os empresários o direito a meia passagem deve restringir-se somente ao deslocamento de casa para a escola, da escola para casa. O estudante que busca a formação fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida não deveria ter o direito de pagar meia quando vai se divertir, ir ao teatro, ao cinema ou a uma apresentação cultural. Nem deveria pagar meia quando vai se reunir com amigos para estudar, fazer alguma pesquisa, trabalho ou socializar-se de forma geral.
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Com os passes estudantis não é possível fazer esse controle, mas com o cartão sim. Nenhuma autoridade anunciou tal objetivo, mas é bom sabermos exatamente o que eles “podem” fazer. Eles podem restringir o horário em que poderemos usar o cartão, ou seja, horário de ida e vinda da escola. Porem restringir os dias, permitindo somente os dias de aulas, o que corta fins de semana e feriados. Podem inclusive, como acontece em Goiânia, negar o direito para quem mora perto da escola, pois, pelo que parece, ele(a) “pode ir a pé”.
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Precisamos ficar atentos aos acontecimentos, às mudanças e iniciativas, principalmente governamentais e empresariais, pois as atitudes deles interferem diretamente e profundamente no dia-a-dia de todos os cidadãos. Nossa qualidade de vida e nossos direitos são limitados e prejudicados por decisões erradas ou interesses econômicos e isso não pode ser permitido.

Alê

3 comentários:

Taoan disse...

ótimo Alessandro! Dá pra colocar isso em alguns lugares;)

nitaibezerra disse...

Transporte público, uma solução comum que favorece a maioria. Vejam o que estão fazendo para melhorar o nosso sistema de transporte público. www.onibusrecife.com.br

Patrick disse...

A bicicletada tá ocorrendo todo mês?

 

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Quando acontece?

Quando: toda última sexta-feira do mês.
Onde: concentração no IFRN, Salgado Filho.
Horário: a partir das 19 horas e saída as 19:30hs.

O roteiro (suscetível a alterações a qualquer tempo) é definido no ato da concentração.

Qualquer um pode participar, não importa o sexo ou a bicicleta, não fazemos competição, não fazemos só um passeio, fazemos ciclopasseata, cicloativismo, paramos em sinais, abrimos faixas, cartazes, panfletamos, conversamos com motoristas e nos divertimos muito assim, promovendo a bicicleta na cidade.

Então, chame seus amigos e junte-se a nós!
Leve faixas, cartazes, placas, personalize sua bike, ou seja, use sua criatividade para transmitir à cidade nossos ideias.
A participação é livre e gratuita, venham para somar.

É desejável o uso de equipamentos de segurança como capacete e luzes sinalizadoras.

Menores de idade somente acompanhado de um responsável.

Pense a respeito

"Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente". - Krishnamurti

"Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas motivadas e comprometidas possa mudar o mundo" - Margaret Mead

"Posso não conseguir mudar o mundo, mas vou me divertir tentando" - Anônimo

"Precisamos em Natal na verdade, é de Mobilidade Humana" - Milena Trigueiro

"Bicicletada Natal, não é um grupo de passeio, é um estado de espírito" - Clebson Melo

Sem Ciclos

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É um blog desenvolvido pela Bicicletada Natal/RN para catalogar os acidentes envolvendo ciclistas no estado. Tem por objetivo argumentar a necessidade da estrutura e da segurança para os ciclistas, de forma que entada-se que o uso da bicicleta está além da diversão e lazer e que para tanto, necessita de políticas que enxerguem a necessidade de trabalhar esse modal em todos os seus aspectos. Sabe de alguma ocorrência de acidente com ciclista? Informe-nos aqui.